domingo, 18 de agosto de 2013

Apresentação deste Blog

Este Blog trata-se de uma evolução do antigo site Opinião Espírita (opiniaoespirita.org), que foi completamente descontinuado em 29/12/2013.

Todo mundo (ou pelo menos quase todo mundo) concorda que o Espiritismo, na sua expressão mais pura, pode ser encontrado em apenas uma fonte: nas obras de Allan Kardec. E não há como ser de outra forma, pois foi Kardec quem criou a palavra Espiritismo e por isso só ele tem o direito de determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita.

Embora eu tenha nascido em família com tendências espíritas/espiritualistas, me considero um estudioso, admirador e adepto do Espiritismo apenas desde o ano de 2004, que foi o ano em que efetivamente comecei a me aprofundar sobre o assunto. Porém, não posso deixar de admitir que o meu pensamento foi também fortemente influenciado pela filosofia de Immanuel Kant a partir do final do ano de 2010. Essa filosofia me introduziu conhecimentos e conceitos que eu até então estava longe de conceber e que, por outro lado, me ajudaram a resolver intimamente uma série de questionamentos acerca de assuntos controversos relativos ao Espiritismo.

Então hoje, por exemplo, estou absolutamente convicto de que o futuro do Espiritismo é como uma Religião (na verdade uma crença, ou uma convicção), como uma aplicação direta da Filosofia Prática, e creio hoje que ele não possui nenhum futuro caso continue se apresentando ao mundo como uma ciência com pretensões de gerar conhecimentos (ou seja, como uma Filosofia Especulativa ou Teórica). É verdade que o seu caráter experimental também pode ser considerado uma prática científica, pois esta objetiva recolher fatos, com método próprio, para posteriores estudos. Mas o resultado desses estudos será sempre objeto para uma convicção espírita e jamais para um conhecimento espírita. No âmbito do conhecimento bastará apenas saber que os postulados espíritas jamais poderão ser refutados por ninguém, da mesma forma que também nunca poderão ser provados. Por mais que tenhamos a tentação de dizer (e eu no passado não fui uma exceção) que a existência dos espíritos e a sua comunicabilidade é empiricamente provada e/ou racionalmente demonstrável, isso não é bem assim, e a existência dos espíritos não só não foi ainda provada ou demonstrada, como nunca será e nem poderia ser sem que, em decorrência disto, o Espiritismo se convertesse em uma nova forma de superstição, onde a autoridade da revelação se sobreporia à razão na determinação das nossas ações.

Por outro lado, a história também mostra que onde quer que o Espiritismo tenha sido apresentado como uma ciência no mundo ele foi abandonado e desprezado, taxado de fraude (pelo menos como suspeita de fraude, pois nunca se pôde e nunca se poderá refutar de modo definitivo essa acusação), visto que os seus postulados (a existência de Deus, da alma, a reencarnação, a imortalidade, etc.) não podem ser provados ou demonstrados com uma certeza absoluta. A apresentação do Espiritismo na França primordialmente como uma ciência após a morte de Kardec foi o que, a meu ver, levou ao seu desaparecimento, e não só na França, como em todo o hemisfério norte. O Espiritismo sobreviveu, ainda sobrevive e cresce no Brasil somente pelo fato de aqui ele ainda ser apresentado como uma Religião, ainda que forma bastante distorcida e misturado com muito misticismo, mistificação, idolatria e superstições. Mas isso pelo menos mostra que só como uma Religião o Espiritismo possui um diferencial que faz com que se sobressaia perante outros sistemas, mesmo que contaminado com coisas que são estranhas ao seu caráter.

Há também uma outra razão de ordem prática para o Espiritismo não poder ser nunca tomado como um conhecimento (uma ciência): ao conhecimento a conformação é obrigatória, ao contrário da crença, cuja adesão é livre. Quando pensamos em leis da natureza (que são todas lógico/matemáticas), em leis dos seres racionais (leis morais), ou em um conhecimento empírico, comprovado pela experiência, a nossa adesão e conformação é obrigatória. Se um engenheiro não observa os cálculos matemáticos na construção de um prédio ele pode ser processado, e com razão, por mau exercício da profissão, porque ele tinha a obrigação de obedecer aos cálculos necessários para a obra. Se alguém usa uma outra pessoa como simples objeto e não como fim em si mesma, ele pode ser justamente condenado, pois isso se trata de uma violação às leis morais, que são objetivamente conhecidas e cuja conformação é também obrigatória, gostemos ou não. Eu também, como pessoa física, não posso negar fatos empiricamente comprovados (por exemplo, a existência de seres que vivam apenas embaixo d'água); como cientista eu também não poderia negar observações que contrariassem as minhas teorias, etc. Todos somos obrigados a nos dobrar aos fatos. Podemos sempre, portanto, obrigar o outro a se conformar a um conhecimento, mesmo que a contragosto.

Mas o mesmo não ocorre com uma convicção (ou crença), cuja adesão é livre. Não posso obrigar o outro a aderir às minhas convicções, por mais sólidas que elas pareçam. Não podemos obrigar o outro, por exemplo, a crer em Deus, a crer na imortalidade, a crer no livre-arbítrio do homem, por mais que reconheçamos o interesse prático associado a essas crenças e a nossa obrigação de vivermos no mundo como se esses objetos fossem reais. Portanto, no âmbito do conhecimento obrigamos o outro; mas no âmbito das convicções podemos apenas tentar convencer o outro. E como bem declarou Kardec:
Coerente com seus princípios, o Espiritismo não se impõe a quem quer que seja; quer ser aceito livremente e por efeito de convicção. Expõe suas doutrinas e acolhe os que voluntariamente o procuram.

Não cuida de afastar pessoa alguma das suas convicções religiosas; não se dirige aos que possuem uma fé e a quem essa fé basta; dirige-se aos que, insatisfeitos com o que se lhes dá, pedem alguma coisa melhor. (grifos meus)

Kardec em Obras Póstumas - Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo
Todos os erros da Igreja da Idade Média se deveram à elevação daquilo que era legitimamente objeto de crença ao status de um conhecimento. Dessa forma a Igreja e os chefes dos Estado entenderam que poderiam obrigar o povo à adesão daquilo que eles consideravam legítimos conhecimentos, mas que na verdade não passavam de convicções. O Espiritismo, quando eventualmente apresenta seus postulados como conhecimento espírita, insensivelmente trilha pelo mesmo caminho, donde que importa corrigir a rota desde já (enquanto ele ainda é "pequeno"), aprendendo com os erros de outros sistemas que também se apresentam ou apresentaram ao mundo como conhecimentos (neste caso chamados de dogmas) e que se impuseram (como no caso dos antigos sistemas cristãos) ou ainda se impõem (como os atuais sistemas islâmicos) como conhecimentos certos.

Tampouco podemos dizer também que o Espiritismo é uma simples opinião. Se considerá-lo um conhecimento seria elevá-lo a um status que não deveria ostentar, considerá-lo uma mera opinião, pelo contrário, seria rebaixá-lo a um status igualmente indevido. Na opinião o objetivo é também teórico e não prático. Na opinião, o erro ou o acerto em nada me afeta (subjetivamente), nem com relação às decisões que preciso tomar para a minha vida prática, nem quanto ao meu estado de espírito. Eu posso ser de opinião, por exemplo, que existe a matéria escura dos físicos, porque essa questão em nada me afeta. Eu não vou agir nem me sentir diferentemente se isso for verdadeiro ou falso. Mas não consigo ser indiferente se, como outro exemplo, Deus existe ou não, há ou não livre-arbítrio, somos ou não imortais, porque essas coisas afetam o meu futuro e a veracidade ou falsidade de qualquer dessas proposições afeta bastante as minhas decisões no mundo e o meu estado de espírito. Dessa forma, não me basta uma simples opinião espírita, pois não é indiferente para mim, pessoalmente, a veracidade ou falsidade dos postulados espíritas. Preciso de convicções (favoráveis ou contra as teses). Por esta razão este Blog está sendo batizado de Convicção Espírita em oposição ao meu antigo sítio Opinião Espírita. Eu me considero, portanto, um adepto da crença ou convicção espírita, porém não me considero mais adepto do chamado conhecimento espírita (que reputo como ilusório) ou de uma simples opinião espírita, pelas razões anteriormente expostas.

Por mais respeito e veneração que tenho pela doutrina espírita e por seu codificador (que considero antes de tudo um homem de grande bom senso e um homem de bem), o leitor perceberá que atacarei aqui as pretensões ao conhecimento do Espiritismo tanto quanto as pretensões adversárias a ele. Não reputo a Kardec a culpa pelos próprios excessos nas especulações acerca das coisas suprassensíveis, visto que este tipo de erro é natural em nós (repito, em mim próprio não foi uma exceção), era uma característica dos homens do tempo dele (e também do nosso) e quem quer que não tenha sido alertado por uma crítica da razão (mais precisamente a crítica kantiana) muito dificilmente conseguirá evitar de cometer esses excessos. A obra de Kant nunca é citada nas obras de Kardec, de modo que podemos facilmente nos convencer que Kardec ignorava o seu conteúdo, embora muito provavelmente a conhecesse apenas de nome, como a maioria de nós. Na verdade, talvez a escolha de Kardec para a missão do Espiritismo possa até ter sido determinada por sua ignorância de uma crítica da razão, a fim de encobrir a doutrina com um verniz dogmático e assim atravessar o conturbado século XX, o século das tempestades. Por isso também os espíritos teriam dito a Kardec que ele possuía as qualidades necessárias para aquele momento, mas não possuía as qualidades necessárias para o desenvolvimento da obra espírita no futuro (Obras Póstumas - 22/12/1861). Penso que o trabalho concernente ao futuro é justamente remover esse verniz dogmático, abandonando as pretensões ao conhecimento e, consequentemente, resolvendo o conflito com a ciência, estabelecendo o Espiritismo como uma convicção, a fim de que ele possa finalmente brilhar em todo o seu esplendor como uma pura crença prática.

Portanto, apesar de atacar as pretensões ao conhecimento do Espiritismo, deixo aqui intocada a crença espírita e o caráter cristão do Espiritismo, e alerto aos amigos espíritas que eventualmente fiquem chocados (ao menos em um primeiro momento) com a censura que aqui faço ao codificador do Espiritismo, de que este seria muito mais forte e influente apenas como uma crença do que como uma crença misturada a um falso saber (que é sempre dogmático, alvo fácil do ceticismo e verdadeira fonte de incredulidade), e que o falso saber no Espiritismo tem atuado como aqueles galhos fracos de uma árvore que só servem para sugar as suas forças e que, quando podados, permitiriam que a árvore crescesse e se desenvolvesse com todo o seu vigor e força. A crítica que farei aqui ao Espiritismo visa justamente indicar os falsos saberes que estão nele presentes a fim de que, se removidos, ele possa crescer e se desenvolver de forma mais vigorosa do que tem sido capaz até então.

Quanto aos outros sistemas adversários, a grande maioria não conseguirá sobreviver como simples crença. Eles só sobrevivem ainda porque possuem uma pintura dourada (uma dialética) que os fazem brilhar como se fossem conhecimentos, mas que não passam de dogmas disfarçados de conhecimento. Removendo com uma crítica a pintura dogmática de todos os sistemas (inclusive a do próprio Espiritismo), veremos o que há de fato por baixo, se verdadeiro tesouro (uma pura crença prática), ou prata, ferro, bronze, ou mesmo madeira podre e corroída. Visto que todos são inviáveis como conhecimentos (pois não são evidenciáveis ou demonstráveis), verificaremos se são viáveis como crenças (ou seja, se possuem algum interesse prático associado). E a maioria dos sistemas será reprovada neste exame, que o leitor mesmo pode aplicar apenas perguntando a si próprio o que deveria admitir para si mesmo como real na impossibilidade de certezas objetivas. Quanto ao Espiritismo, o considero (subjetivamente) como o puro ouro revestido com uma pintura dourada e que, embora essa pintura também até possua certo brilho, ela só serve para encobrir um brilho muito mais forte e verdadeiro que o Espiritismo possui como crença prática. Removida essa pintura, o Espiritismo brilhará muito mais forte, penso, visto que se tornará absolutamente invulnerável à crítica cética. Portanto, apesar das críticas que farei a frente a certas pretensões de conhecimento do Espiritismo, penso que presto a ele um serviço, pois que o retiro de toda polêmica inútil simplesmente concedendo ao adversário cético aquilo em que ele de fato tem razão na sua censura. Apenas como um exemplo do tipo de crítica que pretendo fazer, vou citar um trecho de um artigo que já se encontra publicado em outro lugar:
...A segunda parte do "mandamento" é um passo além, ou seja, aqui já há uma comprovação ou pressuposta comprovação da realidade que é convertida então em necessidade. É como se eu, por constatar a existência da Lua dissesse que é necessário que exista uma Lua. Ora, tudo o que posso afirmar é que ela é real, pois me é dada pelo empírico, mas não posso jamais afirmar que é necessário que ela exista, pois se ela não existisse a ordem do universo não seria necessariamente alterada. A existência da Lua é, portanto, contingente e não necessária. Então, a razão tem uma tendência natural de converter em uma necessidade (em uma lei ou regra) aquilo que é apenas realidade ou pressuposta realidade. Vejamos aqui um exemplo do Espiritismo. Allan Kardec, na Revista Espírita do mês de dezembro de 1862, no artigo intitulado Charles Fourier, Louis Jourdan e a Reencarnação, escreveu (grifos meus):
A questão é saber se existe ou não a lei da reencarnação. Para os espíritas há milhares de provas contra uma que é inútil repetir aqui. Direi apenas que o Espiritismo demonstra que a pluralidade das existências não só é possível, mas necessária, indispensável; e ele encontra a sua prova, abstração feita à revelação dos Espíritos, numa inumerável multidão de fenômenos de ordem moral, psicológica e antropológica. Tais fenômenos são efeitos que têm uma causa. Buscando-se a causa, nós a encontramos na reencarnação, posta em evidência pela observação daqueles fenômenos, como a presença do Sol, embora oculto pelas nuvens, é posta em evidência pela luz do dia. Para provar que a lei está errada, ou que não existe, seria preciso explicar melhor, por outros meios, tudo o que ela explica, o que ninguém ainda fez.
Eu, como espírita, creio na reencarnação. Mas crer nela é diferente de saber que ela é real e, mais ainda, que ela é necessária. Aqui neste trecho houve duplo excesso no juízo: primeiro a conversão da hipótese em realidade e, em seguida, a conversão da pressuposta realidade em necessidade. Primeiramente, a reencarnação é contingente e não necessária. Para afirmá-la necessária eu deveria ser capaz de demonstrar a impossibilidade de Deus se servir de outros meios que não ela para fazer evoluir os espíritos, o que implica também em demonstrar que existem Deus e espíritos. Mas essa demonstração não existe e nem vai existir para o homem na Terra. Portanto, em princípio a reencarnação poderia ocorrer ou não sem que a ordem natural do mundo se alterasse, o que mostra que ela é contingente. Se ela é uma lei, não sabemos; mas para nós ela será sempre contingente. Em segundo lugar, para eu evidenciar o contingente eu só poderia fazê-lo pelo empírico (pela experiência). Mas quem é que já acompanhou empiricamente uma alma desde o momento em que ela deixa um corpo até o momento em que ela toma outro corpo, a fim de se assegurar que era ela mesma quem estava renascendo? Ninguém nunca fez isso, e nunca fará, donde que a reencarnação nunca poderá ser provada sequer como real.

É verdade que a reencarnação é possível; é verdade que ela nunca será provada impossível; é igualmente verdade que a razão não consegue sequer conceber outro meio moral que não ela a fim de que evoluam os espíritos e de resolver o chamado "problema filosófico do mal"; é verdade que ela foi revelada por uma multidão de fontes diferentes (apesar de também não ter sido revelada por uma multidão de outras fontes); é verdade que há vários fatos empíricos que sugerem fortemente a reencarnação (como os estudados pelo Ian Stevenson); e é verdade que todos esses fatores são capazes de sustentar uma firme crença na reencarnação (e por isso eu próprio creio nela). Mas isso apenas demonstra a possibilidade da reencarnação, mas de forma alguma a sua realidade ou necessidade.

Citei esse trecho aqui apenas para mostrar que não faço concessões nem mesmo para o Espiritismo (que é a minha própria opção de crença), e isso com o mais absoluto respeito e veneração ao seu codificador (Allan Kardec) que, creio, não me reprovaria nesta crítica. No entanto, eu gostaria igualmente de deixar algumas palavras em defesa de Kardec sobre o porquê de ele poder ter incorrido em erros deste tipo.

Em primeiro lugar, como já disse acima, é muito difícil que a razão, por mais consistente que seja (como era a de Kardec, penso), não ultrapasse os seus limites sem que tenha sido alertado por uma crítica da razão. Como Kant não é sequer citado nas obras espíritas, é quase certo que Kardec não conhecia os meios que evitariam que ele se excedesse na especulação, confundindo então uma necessidade prática subjetiva com uma evidência objetiva.

Em segundo lugar, Kardec se via às voltas com outros dogmáticos que procuravam refutá-lo, tanto teístas como ateístas, e que apresentavam os seus argumentos como se fossem conhecimentos. Ora, uma crença, pela falta de evidência, parece inferior a um legítimo conhecimento, e Kardec por vezes não atentou que para refutar os dogmáticos bastava-lhe contestar as suas pretensões ao conhecimento e exigir-lhes ao mesmo tempo o interesse prático associado às suas crenças, coisa que os seus adversários nunca poderiam ter-lhe fornecido. Por muitas vezes Kardec assim procedeu, mas também em muitas outras ocasiões ele tentou elevar as suas crenças ao status de saberes (como no caso da citação acima), e de forma apagógica, para disputar com aqueles dogmáticos no mesmo nível - o do saber. Só que no âmbito dogmático é impossível uma vitória completa, e nessa luta a crença fica ofuscada, como se fosse um prêmio de menor importância, quando na verdade é a única causa que estava realmente em disputa. Mas isso é ainda o resultado da ausência de uma crítica da razão, que nos leva a rebaixar indevidamente a importância da crença em detrimento do saber. Pelo contrário, uma crença legítima, com seus interesses práticos associados, não é inferior a nenhum saber, seja ele legítimo ou ilegítimo.

Em terceiro lugar, no conjunto de sua obra, Kardec nunca deixou de apresentar o Espiritismo ao mundo como uma crença. Apenas aparecem traços dogmáticos em sua obra, mas esses traços são exceções e não regras. Em alguns casos parece ser mais uma confusão linguística do que efetivamente excesso na especulação. Em suporte a isso apresento abaixo três citações onde Kardec e os espíritos se restringiram ao legítimo domínio da crença:
Não escutais já o ruído da tempestade que há de arrebatar o velho mundo e abismar no nada o conjunto das iniquidades terrenas? Ah! bendizei o Senhor, vós que haveis posto a vossa fé na sua soberana justiça e que, novos apóstolos da crença revelada pelas proféticas vozes superiores, ides pregar o novo dogma da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham cumprido, bem ou mal, suas missões e suportado suas provas terrestres. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XX, item 4, Missão dos Espíritas, 1864) (grifos meus)
Interessante a reencarnação ter sido chamada de dogma pelo espírito que ditou a comunicação acima e em diversos momentos das obras de Kardec, pois ela parece ter sido exposta mesmo de forma dogmática, como indiquei acima. Só que o dogma nada mais é do que um falso saber. Não seria isso um indicativo de uma falha teórica a ser reparada e de restituir a reencarnação ao domínio legítimo da crença? Em outro ponto:
O Espiritismo é uma opinião, uma crença; fosse até uma religião, por que se não teria a liberdade de se dizer espírita, como se tem a de se dizer católico, protestante, ou judeu, adepto de tal ou qual doutrina filosófica, de tal ou qual sistema econômico? Essa crença é falsa, ou é verdadeira, se é falsa, cairá por si mesma, visto que o erro não pode prevalecer contra a verdade, quando se faz luz nas inteligências. Se é verdadeira, não haverá perseguição que a torne falsa. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVIII, item 51, 1864) (grifos meus)
Novamente aqui o Espiritismo é apresentado como aquilo que ele é: uma crença. E finalmente para que não reste nenhuma dúvida a respeito, na obra mestra de Kardec:
Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras. Os vocábulos espiritual, espiritualista, espiritualismo têm acepção bem definida. Dar-lhes outra, para aplicá-los à doutrina dos Espíritos, fora multiplicar as causas já numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiritismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas. (O Livro dos Espíritos - Introdução, 1857) (grifos meus)
A mim, portanto, não resta dúvida de que o Espiritismo se apresentou ao mundo como uma crença, embora tenha se servido, por vezes e indevidamente (não de forma intencional, claro), das armas ou da linguagem da especulação. O Espiritismo, contudo, a meu ver, já é perfeito como crença prática para que necessite tomar qualquer coisa emprestado da especulação, o que aliás só serve para prejudicá-lo perante a opinião pública ao torná-lo alvo fácil do ceticismo. Portanto, penso, o Espiritismo seria mais forte se não recorresse a este tipo de expediente. Porém, não há como colocar panos quentes e esses traços dogmáticos são encontrados nas obras de Kardec e isso não pode deixar de ser censurado, sob pena de sermos acusados de utilizarmos dois pesos e de duas medidas nas críticas aos nossos adversários. Pelo contrário, exijo a renúncia ao dogmatismo do meu adversário ideológico da mesma forma que renuncio ao meu próprio dogmatismo. O Espiritismo não tem nenhum privilégio na escola do conhecimento e precisa se ajustar às regras do entendimento (ou seja, às regras da Ciência) tão bem como todos os outros sistemas.
Para ler o artigo completo o leitor pode seguir este link. Resumindo a história, este Blog não tratará especificamente de Filosofia, o que já faço em outro lugar, nem misturará a filosofia de Kant à revelação espírita (visto que a filosofia deveria atuar como um crivo da revelação e não se misturar ela própria à revelação), nem tampouco procurará pretensas inspirações espirituais precursoras do Espiritismo nas obras de Kant, o que seria desprezar o gênio deste filósofo, mas sim submeterá o Espiritismo a um severo crivo racional à luz da crítica da razão kantiana, a fim de remover o "brilho" dogmático que hoje o envolve, de modo que ele consiga brilhar mais no futuro como pura crença prática.

Mas isso, como vimos, implicará em algumas críticas a Kardec, o que criará uma aparente contradição na minha argumentação: se entendo que a fonte de todo o Espiritismo está em Kardec, ao discordar em parte de Kardec eu não estaria então me afastando do verdadeiro espírito do Espiritismo e inaugurando um sistema ou seita divergente? Quanto a isso eu respondo da seguinte forma:

1. Em primeiro lugar, não é uma discordância de Kardec que faz com que algo não seja mais considerado espírita. Quando Kardec disse em A Gênese, cap. I, item 55 que caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais seria ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto; se uma verdade nova se revelasse, ele a aceitaria, isso queria dizer que qualquer modificação no caráter da doutrina que estivesse de acordo com o exposto acima, o próprio Kardec a aceitaria, como se fosse ele próprio a implementar a modificação. Ao demonstrar alguns excessos especulativos de Kardec e restituir alguns de seus ensinos ao legítimo domínio da crença, penso (aos meus próprios olhos) estar realizando um ajuste na doutrina que o próprio codificador faria, se vivesse ainda hoje. Desse modo, penso que ainda posso continuar alimentando a pretensão de continuar em acordo com o espírito do Espiritismo, mesmo discordando eventualmente de aspectos particulares das obras de seu codificador e mesmo que possa não ser assim considerado por outros espíritas mais fieis à letra de Kardec do que ao espírito de sua obra.

2. Em segundo lugar, como bem disse o próprio Allan Kardec, após sua morte a elaboração do Espiritismo passaria a ser coletiva ao invés de individual. Isso significa que qualquer modificação na doutrina só se tornará válida caso seja adotada livremente por todos os adeptos. Como não pretendo impor a ninguém meus pontos de vista, visto que tudo aqui se tratará das minhas convicções, por minha conta e risco, considero-me livre para subjetivamente tentar colocar a minha pedra no edifício e considero-me livre para me ver (aos meus próprios olhos) em acordo com o espírito do Espiritismo, sem precisar dar maiores satisfações a ninguém, visto que cada um é livre para aderir ou rejeitar os meus pontos de vista. Ou minhas conclusões estão corretas ou elas estão erradas. Se estão corretas, de nada adiantarão os gritos que de mim discordam, e eu posso aguardar tranquilamente uma adesão livre e universal no futuro, o que então será considerada uma atualização da doutrina. Se estou errado, se a submissão que proponho do Espiritismo à crítica kantiana* estiver equivocada, basta que eu seja refutado e é isso que eu mais espero que seja tentado, pois ou o meu erro será demonstrado e eu poderei ajustar os meus pensamentos, ou então as minhas conclusões serão reforçadas e melhoradas nessas tentativas fracassadas. De qualquer forma o pensamento espírita só teria a ganhar nessa luta, vencendo eu ou não essa disputa.

* Eu me refiro aqui à crítica kantiana porque foi Kant quem expôs pela primeira vez essa crítica. Mas ela não é uma crítica pertencente a Kant, assim como o Teorema de Pitágoras não pertence a Pitágoras, e eles foram apenas os agentes de sua revelação, que na verdade podem ser fundamentadas e comprovadas na própria natureza da nossa razão. Quando digo então "crítica kantiana", apenas reconheço a esse filósofo o mérito da sua descoberta e exposição, mas de modo algum uma submissão do Espiritismo a um homem, ou a uma obra, ou a um pensamento.

No entanto eu não tenho ilusões: prevejo muita oposição, pelo menos em um primeiro momento. Parece até que já ouço os gritos: "O quê!? Submeter a Terceira Revelação Divina ao crivo de uma obra humana? E ainda por cima anterior a ela? Absurdo!". Que seja. Quanto a isso eu só peço aos imparciais (porque aos parciais e sistemáticos nada há que se fazer que não deixá-los em paz com suas ideias) o que pediria Kardec em uma situação semelhante: o exame, antes de qualquer aceitação ou rejeição. Não considero seriamente a adesão de quem não examinar os meus pensamentos e não souber explicar para si próprio porque eu estaria com a razão, assim como não considero seriamente as objeções daqueles que não sabem explicar porque eu estaria errado. Mas respeitarei, evidentemente, todos os pontos de vista daqueles que de mim discordarem; assim como espero que as minhas discordâncias sejam por todos respeitadas. A tolerância na divergência é importante para o livre pensamento e para o progresso da humanidade. Deixo abaixo a indicação de dois ensaios filosóficos meus que talvez ajudem a tornar mais claro o plano aqui proposto:

- Sobre a crença e a fé...
- Qual seria o verdadeiro papel das revelações religiosas?

Na transição do antigo site para este, alguns ensaios meus foram descontinuados por estarem (pelo menos em parte) em descompasso com os novos objetivos deste Blog. A área de comentários estará aberta a todos os que quiserem se pronunciar (inclusive anônimos), e na medida do possível serão respondidas as eventuais objeções que forem feitas. Por fim, encerro com um aconselhamento de São Luís exposto no cap. XXXI, item XVII de O Livro dos Médiuns:
Meus amigos, deixai que vos dê um conselho, visto que palmilhais um terreno novo e que, se seguirdes a rota que vos indicamos, não vos transviareis.
Tem-se-vos dito uma coisa muito verdadeira, que desejamos relembrar-vos: que o Espiritismo é simplesmente uma moral e que não deverá sair, nem muito, nem pouco, dos limites da filosofia, se não quiser cair no domínio da curiosidade.
Deixai de lado as questões de ciência*: a missão dos Espíritos não é resolvê-las, poupando-vos ao trabalho das pesquisas; mas, procurai tornar-vos melhores, porquanto é assim que realmente progredireis.

São Luís.
* Evidente que São Luís não recomenda aqui que deixemos de lado absolutamente as questões de ciência, mas que deixemos de lado as questões de ciência apenas no âmbito do Espiritismo, pois isso seria desviá-lo da sua finalidade.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Petrópolis/RJ
Revisado em 15/11/2017

2 comentários:

  1. Oi, Rafael

    Não, não foi Kardec quem criou a palavra Espiritismo. Querer circunscrever o termo “espiritismo” ao espiritismo reencarnacionista evolutivo de Kardec (“kardecismo”), não tem qualquer base sólida, seja conceitual, seja histórica. As pesquisas do Senhor José Carlos Ferreira Fernandes demonstram de forma cabal que a origem do nome “Espiritismo” não é de Kardec, sequer francesa. Duas obras do ano de 1854 já utilizavam o termo spiritism: a obra anti-espírita de Orestes Augustus Brownson (1803 – 1876), The Spirit-Rapper: an Autobiography (Boston, Little, Brown & Company, 1854), págs. 293-94, e o Apocatastasis, or Progress Backwards, de Leonard Marsh (1800 – 1870), da Universidade de Vermont, editado em Burlington por Chauncey Goodrich. Ao longo do livro o termo “spiritism” ocorre dez vezes. Assim, o fato é que, em 1854, nos Estados Unidos (três anos antes da publicação de O Livro dos Espíritos de Kardec, onde o termo pretensamente teria vindo a público pela primeira vez), a palavra spiritism já era um mote comum para se referir aos fenômenos do new spiritualism.

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    1. Oi Enfant,

      Eu já tinha ouvido falar de estudos como esses do Sr. José Carlos Ferreira Fernandes, que aliás, são bem recentes. Pressupondo que a conclusão da pesquisa esteja correta (e não duvido que esteja), esse fato na verdade nada muda. Quando Kardec utilizou o vocábulo "Espiritismo" ele cria estar utilizando uma palavra que nunca fora utilizada por ninguém. Se não o era de fato, se existia uma ou mais obras em inglês, que quase ninguém conhecia e que mencionava essa palavra "dez vezes", como vc diz, resta a intenção de Kardec de rotular o seu sistema com uma palavra nova para diferenciá-lo dos demais. Por isso ele criou o rótulo, utilizando-se de uma palavra que ele acreditava estar sem uso. Se esse uso anterior fosse realmente um "mote comum", Kardec, assim como toda a França, deveria conhecê-lo bem, e ele certamente utilizaria outra palavra.

      Seja qual for o uso que a palavra "Espiritismo" tinha antes de Kardec, o fato é que esse uso não "pegou" nem mesmo até a publicação de O Livro dos Espíritos em 1857 (pois Kardec não a conheceu), sendo sobreposto depois pelo significado que Kardec lhe atribuiu, o qual se consagrou pelo uso. Duvido muito que aqueles que se apropriaram do termo depois de Kardec tinham ouvido falar de Brownson ou Marsh, ou de qualquer outro que eventualmente descubram escondido em alguma biblioteca antiga. Todos esses que se apropriaram do termo depois sempre a relacionavam à doutrina de Kardec, que já estava consagrada pelo uso.

      Penso que somente adeptos dos sistemas provenientes dos pensamentos de Brownson ou Marsh poderiam legitimamente reivindicar o uso da palavra "Espiritismo". Mas existem adeptos desses sistemas de pensamento? Kardec se apropriou inconscientemente de um termo que outro havia utilizado. Os sistemas que apareceram depois de Kardec se apropriaram inconscientemente do termo "Espiritismo"? Então, salvo se adeptos dos pensamentos anteriores a Kardec quiserem reapropriar esse termo, penso que hoje ele pertence legitimamente a Kardec.

      Eu posso muito bem produzir um chocolate em pó caseiro e colocar o rótulo de uma marca famosa para alavancar a minha venda. Talvez nem exista lei que me proíba de fazer isso. Porém, isso não seria digno e eu estaria apenas enganando o consumidor. Eu não vejo nenhum problema em utilizar a palavra "kardecista" justo com "Espiritismo" a fim de me referir ao sistema de Kardec e de diferenciar o meu pensamento e adesão de "outros chocolates" que circulam por aí com o mesmo rótulo. Mas aquele que hoje utiliza o termo "Espiritismo" está com a consciência tranquila de que não está usurpando o rótulo de alguém para se aproveitar do prestígio da marca? Se eu tenho dúvidas de que o termo já pertence a alguém, porque então utilizá-lo e não escolher outro? Com todas as discordâncias que eu tenho com sistemas dissidentes que nasceram dentro do ambiente espírita, como a Umbanda, a LBV, o Divinismo e o Racionalismo Cristão, é preciso reconhecer-lhes o mérito de utilizarem rótulos próprios para as suas ideias, ao invés de se apropriarem do rótulo utilizado por Kardec. Tenho certeza que Kardec assim também o faria, se soubesse do uso anterior do termo "Espiritismo". Mas infelizmente não se pode esperar que todos ajam desta maneira. Então, cada um que responda a sua própria consciência.

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